Não é só diretamente que o homem irá sofrer as consequências do uso indiscriminado e abusivo de agrotóxicos. A grande maioria das plantas cultivadas para alimentação humana são dependentes de polinização para produzirem grãos, cereais, frutas e etc. E esta polinização é realizada principalmente por insetos, mais notadamente, pelas abelhas.
A vida do homem na Terra depende de alguns processos biológicos chaves chamados de serviços ecossistêmicos, que são as condições e os processos pelos quais os ecossistemas naturais e as espécies neles inseridas sustentam e complementam a vida, e não apenas a vida humana, mas de todos os seres vivos do planeta. A polinização é um desses serviços. Por meio da polinização realizada pelo vento ou por animais, as plantas se reproduzem, produzem frutos, e também evoluem, se tornando mais adaptadas, mais resistentes, mais produtivas. E é por meio da polinização que se estabelece a produtividade das plantas e dos animais em praticamente todos os ecossistemas terrestres.
No planeta há uma intrínseca rede de interações onde cada espécie, desde a mais pequena e invisível ao olho nu, passando pelas plantas, animais, solo, água, até mesmo o 'efeito estufa' no planeta, e inclusive o ser humano, tem a sua função e a sua importância na manutenção da vida. Mas para variar, o ser humano está destruindo tudo.
E o que as abelhas tem a ver com isso? As abelhas são os insetos mais importantes para a polinização da maioria das plantas utilizadas pelo ser humano sejam frutas, legumes, grãos e até mesmo fibras como o algodão. E elas estão desaparecendo. Só nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 1,4 milhão de colmeias, de um total de 2,5 milhões, tenha desaparecido. Este fato teve maior importância em 2006, quando milhões de colmeias desapareceram na Califórnia. E ganhou mais repercussão ainda quando estes desaparecimentos foram notados em diversos países da Europa.
E o que o ser humano tem a ver com isso? O crescimento populacional desenfreado, a destruição de florestas e ecossistemas, a poluição da água, do ar e do solo são alguns dos fatores. E o principal deles é o uso indiscriminado de agrotóxicos, que não afeta apenas as abelhas, mas diversas outras espécies de insetos polinizadores. Os agrotóxicos são usados nas culturas de interesse econômico contra as pragas, que na sua quase totalidade, são insetos. Estes agrotóxicos não diferenciam lagartas, besouros ou abelhas, polinizadores ou não, sua função é eliminar insetos, e as abelhas estão nesse 'fogo cruzado'.
O uso abusivo de agrotóxicos não está afetando apenas o ser humano, mas colocando em risco toda a vida no planeta. Solos estão sendo contaminados, a água está sendo contaminada, alimentos estão sendo contaminados, e as abelhas estão desaparecendo. Todas as plantas, todos os animais, dependem da polinização. As plantas dependem da polinização para se reproduzir e dar frutos, herbívoros dependem das plantas para se alimentarem, carnívoros dependem dos herbívoros e assim por diante. Se não houver polinização, não haverá frutos, não haverá reprodução das plantas e elas tenderão a desaparecer, levando consigo toda essa teia de interações. E o problema maior é o homem e seus venenos industriais.
Aliás, mais especificamente, a indústria de tais venenos. Não eximirei os produtores de sua parcela de culpa, mas as indústrias que produzem tais 'produtos', visam apenas suas vendas, suas receitas, seu lucros. Empresas como a Monsanto, Bayer, Syngenta, entre muitas outras, criam seus produtos, fazem testes ridículos, e devido ao lobby em governos, conseguem a aprovação e liberação de seus produtos. Mas quando cientistas realmente examinam a fundo os efeitos de seus produtos, elas contestam os resultados dizendo: "Este relatório não é digno da EFSA e seus cientistas" (resposta da Syngenta sobre a avaliação da toxicidade do Tiametoxan sobre as abelhas pela EFSA) e dizem ainda que "os produtos químicos não causam danos as abelhas se usados da maneira pela qual foram aprovados". Ou seja, a própria fabricante do produto, 'tira da reta' sua TOTALIDADE de culpa e a joga sobre o produtor.
Ok. Muitos produtores sabem dos problemas e dos perigos sobre o uso de agrotóxicos, e mesmo assim os utilizam para proteger suas culturas de ataques de pragas. A maioria dos produtores utilizam dosagens maiores que as recomendadas, e muitos ainda utilizam produtos que já foram proibidos. Mas por que? Por culpa das indústrias de tais produtos! Quando um produto é proibido na Europa, eles não reavaliam sua formulação, não fazem novos testes, não retiram o produto do mercado. Eles simplesmente enviam para outros países onde seu uso ainda é permitido devido ao forte lobby que estas empresas exercem. Produtos proibidos na Europa por terem tido comprovadas seus perigos para a saúde e o meio ambiente, são utilizados no Brasil.
Mas voltando ao assunto, "desconfia-se" que este desaparecimento das abelhas está relacionado a inseticidas da classe dos 'neonicotinoides', com origem da nicotina, e que tem ação sistêmica, ou seja, eles entram na planta e passam a fazer parte de sua seiva, suas células e, consequentemente, vão parar nas flores, néctar e pólen. As abelhas se alimentam do néctar e pólen envenenado, se não morrem na planta, o pólen e o néctar contaminado por agrotóxico vão parar nas colmeias, onde servem de alimento para as abelhas na forma de mel, e o resultado, é o enfraquecimento e desaparecimento da colmeia.
"A Comissão Européia (CE) quer proibir durante dois anos a utilização de vários pesticidas mortais para as abelhas para quatro tipos de cultivos: milho, canola, girassol e algodão". Mas é claro que as empresas que produzem e tem lucro com estes venenos são contra a esta proibição: "De acordo com John Atkin, diretor de operações da Syngenta [...] a probição dos neonicotinoides 'nao salvaria uma única abelha'". E estas empresas estão interessadas na perda de suas vendas? Provavelmente, se estes produtos forem realmente proibidos na Europa, eles serão vendidos em outros países.
Concordo com Albert Einstein: "No dia em que as abelhas desaparecerem do globo, o homem não terá mais do que quatro anos de vida."
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